Conheça Seydou Keïta, o fotógrafo que empodera os negros em seus cliques

O malinês foi o responsável por criar uma nova imagem do negro no início do século passado. Signos de sofisticação e empoderamento usados por ele inspiram artistas e são retratados até os dias de hoje FONTE:https://casavogue.globo.com/LazerCultura/Fotogr

15/06/2020 10:43

 

Conheça Seydou Keita, o fotógrafo que empoderou os negros em seus cliques (Foto: Seydou Keïta )

Uma das imagens apuradas de Seydou Keïta: ele cuidava minuciosamente da posição das mãos e das cabeças de seus personagens 

 

Quando, em fevereiro passado, Barack Obama revelou ao mundo seu retrato oficial, adicionado à tradicional coleção da National Portrait Gallery, em Washington, o barulho dentro e fora do circuito das artes foi alto. A escolha do pintor Kehinde Wiley para a tarefa, porém, não teve nada de aleatória. A pose elegante e firme na cadeira frente à folhagem – com jasmim simbolizando o Havaí e agapanto lembrando a descendência queniana do ex-presidente americano – remete diretamente aos signos e à potência arrebatadora das fotografias do malinês Seydou Keïta, objeto de uma aguardada exposição que está em cartaz no Instituto Moreira Salles de São Paulo, e em agosto chega ao Rio de Janeiro.

E MAIS: Artistas brasileiros usam a arte para recontar a história dos negros no Brasil

 

President Barack Obama (Foto: photo by Mark Gulezian/NPG)

O famigerado retrato de Barack Obama por Kehinde Wiley

Filho de um carpinteiro, Keïta começou a fotografar aos 14 anos, ao ganhar uma máquina Kodak Brownie Flash do tio que viajara para Dacar, no vizinho Senegal. Rapidamente desenvolveu estética própria: luz natural, tecidos de fundo com estampas típicas da África Ocidental em contraste com as vestimentas locais tradicionais e uma maneira impressionantemente cuidadosa de posicionar seus personagens. “Os povos de Mali são culturalmente sofisticadíssimos e ele conseguiu transformar isto em imagem”, explica o artista e professor Ayrson Heráclito, entusiasta do assunto. Keïta retratou a diversidade e o cotidiano durante a transição da colônia francesa para o país independente e, com o sucesso do negócio, passou a inserir nas cenas elementos que simbolizavam luxo e poder: relógios, canetas, rádios, vespas, carros. “Pela primeira vez a imagem da África era construída por um africano negro, e não por um colonizador branco com uma visão estereotipada. Nascia, ali, uma importante postura de empoderamento”, completa Heráclito.

 

Conheça Seydou Keita, o fotógrafo que empoderou os negros em seus cliques (Foto: divulgação)

MAYA #2, uma das pinturas de Mickalene Thomas

Conheça Seydou Keita, o fotógrafo que empoderou os negros em seus cliques (Foto: Seydou Keïta )

Um dos famosos retratos de Seydou Keïta – por razões econômicas, ele só fazia umclique e, por isso, ensaiava as poses com os seus clientes antes de realizar a foto

Keïta reinventou o retrato com precisão e apuro, influenciando uma série de artistas a partir de então. Seu maior discipulo é o igualmente malinês Malick Sidibé, que trabalhou nos anos 1960 e 1970. Primeiro africano negro a ganhar o Leão de Ouro na Bienal de Veneza, Sidibé registrou o clima de otimismo e as mudanças culturais por que o país passou pós independência: mostrou ao mundo uma juventude alegre, orgulhosa, embevecida de senso de pertencimento e extremamente ligada em moda. Era um momento, vale lembrar, de conexão entre negros africanos e americanos – Sidibé clicava nas festas em Bamaco e nelas tocava James Brown. “Havia um sentimento de identificação, como se houvesse um retorno da diáspora”, esclarece Heráclito. Mas foi o camaronês Samuel Fosso quem abriu alas para uma série de fotógrafos que produzem autorretratos como intuito de criticar a visão branca estereotipada da África e destacar personagens relevantes da história do continente – sempre influenciados pela estética de Keïta. Classificado como a “Cindy Sherman africana”, Fosso se transveste brincando com códigos culturais para criar arquétipos e questionar gênero e identidade. Assim como ele, outro artista que encarna heróis da história negra é o senegalês Omar Victor Diop. Inspirado por telas históricas, inclui ícones do universo do futebol nas cenas para atualizar as discussões sobre raça. Já a sul-africana ZaneleMuholi reivindica mais do que empoderamento quando o tema é o corpo negro: ela ressalta a delicadeza. Na série Somnyama Ngonyama, Muholi inverte o jogo de signos do mestre Keïta e faz 60 autorretratos com materiais do dia a dia.

 

Conheça Seydou Keita, o fotógrafo que empoderou os negros em seus cliques (Foto: Stevenson Gallery (Zanele Muholi))

Autorretrato da sul-africana Zanele muholi, que produz imagens de poder e, ao mesmo tempo, delicadeza

Se logo após a independência de Mali a ligação com os EUA era intensa e todo mundo só pensava em dançar le twist, a ficha também caiu do lado de cá do Atlântico. A influência dos fotógrafos africanos reflete-se na produção de muitos pintores americanos afrodescendentes. Uma bandeira comum? Mostrar ao mundo todo o potencial da cultura negra. E aí voltamos para Obama e Kehinde Wiley. Filho de nigeriano, Wiley ficou conhecido por pintar só afro-americanos que encontra nas ruas de Nova York, em poses imponentes e heroicas – a referência a grandes mestres da pintura é frequente –, sempre inseridos no universo do design têxtil da África Ocidental. “Meu pai é do oeste da África, meu corpo é do oeste da África. Os corpos negros que viajam pela água são essenciais para o meu trabalho atual”, explicou o artista ao jornal The Guardian. Parece significativo, então, que ele e Amy Sherald (responsável pela pintura de Michelle Obama) sejamos primeiros negros a representarem um ex-presidente e ex-primeira-dama no país.

Conheça Seydou Keita, o fotógrafo que empoderou os negros em seus cliques (Foto: Jack Shainman Gallery/Malick Sidibé)

Nuit de Noël, Happy Club, do malinês malick sidibé

Eles não são únicos, porém. A força da cultura e o diálogo com os fotógrafos precursores aparece, ainda, nas obras de Kerry James Marshall. Assim como Wiley e Omar, Marshall cita a própria história da arte para reescrever narrativas onde o negro ganha papel de nobre protagonista. “Quero demonstrar que a negritude pode ter complexidade, profundidade e riqueza”, defendeu ao The NewYork Times o artista, que mês passado apareceu no Instagram abraçando o casal Obama. Mickalene Thomas, por sua vez, leva ao extremo a ideia do “mix de estampas” proposto pelos precursores malineses, romantizando conceitos de feminilidade e poder. As personagens de suas pinturas são provocativas e seguras de si. Musa para um, musa para todos: Mickalene já havia feito um retrato da ex-primeira dama em 2010. Parece que o casal Obama entende mesmo de arte...

 

SONY DSC (Foto: Jack Shainman Gallery)

School of Beauty, pintura de Kerry James Marshall – americano que questiona a ausência de corpos
negros nos museus

Compartilhas Noticia

Tags

Comentários

Comentários

Escrever Comentário

91597

Subscribe to see what we're thinking

Subscribe to get access to premium content or contact us if you have any questions.

Subscribe Now