Lula toma posse nesta quinta-feira como novo ministro da Casa Civil do governo da presidenta Dilma.Fotos:Ivaldo Cavalcante

17/03/2016 10:19

 O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva toma posse na manhã desta quinta-feira, em solenidade no Palácio do Planalto, em Brasília, como ministro da Casa Civil. O ex-presidente chegou a Brasília nesta manhã.Ao lado de Lula, também assumirão os novos ministros da Justiça, Eugênio Aragão, e da Aviação Civil, Mauro Lopes. Deslocado da Casa Civil para dar o cargo a Lula, Jaques Wagner passará a comandar, a partir desta terça, o novo ministério do Gabinete Pessoal do Presidente da República.

A ira dos endinheirados

Luiz Manfredini *
Fonte:http://www.vermelho.org.br/

As manifestações do último domingo apenas confirmaram o caráter nitidamente classista – de classe média, média para alta – desse movimento de oposição que se avolumou depois que a direita perdeu as eleições de outubro de 2014 e não se conformou com isso.


A própria “Folha de S. Paulo” constatou, mencionando a manifestação na Avenida Paulista: “manifestante mantém perfil de alta renda”. De fato, os manifestantes de São Paulo, como indica pesquisa do Datafolha, tinham renda e escolaridade muito superiores à média da população. Ou seja, o povão não entrou nessa onda anti-Dilma, anti-Lula, anti-PT. Há uma foto emblemática disso, que circulou pelas redes sociais, mostrando populares esperando passar a manifestação para poder atravessar a Avenida Paulista. Vê-se, pelos dados da pesquisa, que também a presença da juventude foi rarefeita (apenas 5% em idade entre 21 e 25 anos), o que questiona a liderança de Kim Kitaguiri, designado pelas elites golpistas como o novo líder juvenil. 

Esse caráter de classe das manifestações, aliás, é o que destaca a mídia internacional, não comprometida com o partidarismo golpista das emissoras 
de TV, revistas e jornais brasileiros. 

Ainda assim, a classe média dominante nas manifestações de domingo julga- se porta-voz do povo. É comum ouvir-se frases como "a vontade do povo", "o povo foi às ruas", "o gigante acordou". Tanto as pesquisas mostram o contrário, quando é cada vez mais evidente que o ódio dessa gente elegante não é exatamente a corrupção. Fosse assim, veríamos faixas, cartazes, palavras de ordem e discursos também sobre a merenda escolar na São Paulo tucana, sobre Furnas, o aeroporto de Cláudio, o helicóptero abarrotado de cocaína. Mas, quanto a isso, corrupções óbvias, nada. A indignação dos endinheirados é seletiva, volta-se contra a presidente Dilma, contra Lula e o PT. E ficam por aí. 

O que também chama a atenção, o que assombra com o potencial de nuvens negras que contém, é a descrença geral na política, inclusive, em certa medida, com sua criminalização. Essa tendência é global e faz parte do discurso neoliberal de supremacia do mercado. As elites, sobretudo calçadas na mídia, a vem construindo ao longo do tempo, daí surgindo soluções absurdas em torno do juiz Moro, louvado por todos, e até mesmo de Bolsonaro, que discursou na manifestação do Rio sem ser vaiado. O tenebroso é que, como o prova a história, esse tipo de descrença é o caldo de cultura do fascismo.

Obviamente, tais opiniões não desconsideram a dimensão das manifestações no cenário da atual crise política, cada vez mais complexas. Elas alimentaram os intentos golpistas, lançaram combustível a uma circunstância cujo desfecho é difícil de prever. Talvez esta semana seja decisiva.

* Jornalista a escritor paranaense, autor, entre outros livros, dos romances "As moças de Minas", "Memória e Neblina" e "Retrato no entardecer de agosto".

Compartilhas Noticia

Tags

Comentários

Comentários

Escrever Comentário

72302

Subscribe to see what we're thinking

Subscribe to get access to premium content or contact us if you have any questions.

Subscribe Now