Entrevista com Nina Berman, fot?grafa norte-americana,por Sara Sanz Pinto. Foto: Ty Ziegel

27/02/2013 17:57

 Nina Berman, fotógrafa norte-americana e vencedora do prémio World Press Photo em 2007, esteve em Lisboa para dar uma conferência sobre "Performance and Spectacle: Constructing the American Homeland Security State", durante a primeira Lisbon Summer School for the Study of Culture, organizada pela Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica. O apanhou-a entre o fim da sua apresentação e um passeio turístico pela cidade.




Trabalhou como jornalista, mas acabou por se tornar fotógrafa. Como foi isso?

Sempre quis ser escritora, estudei para ser escritora. Quando tinha 18 anos recebi uma máquina fotográfica e comecei a fazer os textos e as imagens. Depois arranjei um trabalho como jornalista e detestei. Era incapaz de estar sentada a uma secretária. E também não gostava de ser editada, por isso pensei "eles não conseguem tirar coisas das fotografias, apenas cortá-las". Mas nunca gostei que as outras pessoas mexessem nos meus textos.

Mas diz não se ver como fotojornalista... 

Existe aquela ideia de que o fotojornalismo é objectivo, uma noção que rejeito. Nunca disse que era uma fotógrafa objectiva, e é por isso que não quero ser rotulada com esse termo. Faço o meu trabalho com os meus sentimentos profundos sobre as coisas e não tenho receio de expor isso. Porém, há aquela ideia - que vem dos filmes, das pessoas zangadas com os fotojornalistas, dos paparazzi. Apenas quis divorciar-me da imagem de alguém que persegue alguém com uma câmara.

Nas suas palavras, ficou "obcecada" com o trabalho sobre os veteranos do Iraque. Mantém contacto com eles?

Houve um casal, fotografado para a série "Marine Wedding", com quem troquei vários emails depois de os fotografar, porque não paravam de me dar presentes para lhes entregar. No livro sobre os veteranos, o "Purple Hearts", as pessoas tinham alguns favoritos, mas houve um com quem realmente mantive contacto. Isto porque ganhei uma bolsa para viajar com ele e visitarmos escolas secundárias. Mostrávamos as minhas imagens aos alunos e ele falava da sua experiência. Mas já não falo com ele há um ano. 

Parece haver intimidade entre si e as pessoas que retrata.

Eles gostaram de mim, porque fui ter com eles de coração completamente aberto. E disse-lhes que apenas queria ouvir a sua história. E penso que para quem passou por uma mudança de vida como esta e acabou de regressar a casa com marcas graves no corpo, haver alguém que aparece e diz "olá, quero que me contes a tua história", o resultado é sentirem-se bem e lisonjeados. Mas não mantive nenhuma relação longa com qualquer deles e também não a tinha antes. 

Esteve em locais perigosos, como a Bósnia ou o Afeganistão. Alguma vez teve de decidir entre salvar a vida de alguém e tirar uma foto?

Nunca fui confrontada com essa escolha. Porém, nunca me passaria pela cabeça não ajudar alguém por querer tirar uma fotografia. Nunca estive nessa situação, mas os fotógrafos vivem ensombrados por essa possibilidade. O que as pessoas não entendem é que, para os fotógrafos que estiveram em cenários de guerra violentos, a objectiva é como um escudo, a sua protecção. Penso que os fotógrafos são muitas vezes vistos como criaturas humanas que só pensam em captar aquela imagem, sabe? E não é tanto assim. A objectiva transforma-se de certa forma na sua protecção psicológica. E ouvi muito poucas histórias de alguém que tenha deixado outra pessoa morrer porque queria fotografar a morte e não salvar o corpo.

Teve medo no Afeganistão?

Tive mais medo dos talibãs do que dos bombardeamentos. Quando estive em Cabul a cidade ainda estava a ser bombardeada, mas não de forma regular. Tive mais medo de me estar a expor como alguém que por lá andava a tirar fotografias, porque naquela altura isso não era permitido, e tive medo por expor também as pessoas que estavam comigo.

Os seus trabalhos "Marine Wedding" e "Purple Hearts" são muito fortes. Disse que se visse essas pessoas na rua desviaria o olhar. No entanto, fez exactamente o contrário com o seu trabalho. Porquê?

Por duas razões. A primeira é que não queria ser uma cidadã dos Estados Unidos e atravessar este período de guerras como uma observadora indiferente que vê apenas as notícias na televisão. Queria tornar o assunto pessoal e real para mim. E porque não conhecia ninguém, à excepção dos jornalistas que estiveram no Iraque. Não conhecia nenhum soldado e pensei que devia saber pelo que passaram. Em segundo lugar, quando era uma jornalista que escrevia, a história mais importante que fiz foi no Vietname. Fui para lá com os veteranos da guerra do Vietname e aprendi com essa experiência que estes homens têm histórias muito interessantes para contar. Não são iguais à maioria dos homens, porque são muito abertos com os seus sentimentos, coisa que a sociedade não permite. E por isso são personagens fascinantes. A história dos EUA está tão ligada à guerra que eles se tornaram bons assuntos para mim. Uma outra razão é que não vi imagens de soldados feridos nos media norte-americanos. E vi que uma parte muito significativa da guerra do Iraque não estava a ser mostrada.

E qual foi a reacção deles?

A maioria disse que sim, o que me surpreendeu. Achei que ia ser mais difícil. O mais complicado foi chegar a eles, porque andam por vários sítios até chegarem a casa. Não há listas, não se pode ligar para o Departamento de Defesa e perguntar pelos soldados da Pensilvânia que ficaram gravemente feridos no conflito. 

E como foi a interacção deles com a objectiva?

Oh! Isso é uma pergunta interessante. O primeiro que fotografei foi talvez o mais difícil. Tinha ficado cego. Nunca fotografara uma pessoa cega e ele tinha sido um soldado de elite, por isso tinha sido muito forte e naquela altura tinha de apalpar as paredes para saber onde estava. Na altura eu trabalhava com uma máquina que quando disparava fazia muito barulho. Assim que ouviu o primeiro clique encolheu-se, reagiu ao som. Vi que ele não estava a gostar e disse-lhe que o avisaria mesmo antes de tirar a fotografia. E apenas tirei, não sei, três rolos de filme, de 12 exposições cada. À excepção dele, os restantes soldados sentiram-se confortáveis em frente da objectiva. 

Qual a sua opinião sobre as guerras dos EUA depois disto?

Penso que é fácil ter uma certa compaixão pelos combatentes. É a forma como a maioria das pessoas vê as guerras. Têm grande compaixão pelos civis mas poucos sentem o mesmo pelos veteranos. E isto é justificado na maioria das guerras. O papel dos militares parece-me muito conflituoso. Mais de um milhão de pessoas foram combater para o Iraque e o Afeganistão e a sua experiência tem efeitos colaterais imensos... E nem quero pensar quão perturbada a sociedade norte-americana está com tantas gerações que estiveram na guerra. Nenhum outro país, à excepção talvez do Afeganistão, teve este problema, onde gerações e gerações foram negativamente afectadas desta forma. Ou seja, o Afeganistão é claramente o caso mais extremo, e não quero comparar os dois casos, porque são muito diferentes. Aquilo que lhe posso dizer é que há pessoas que vêem as minhas imagens e dizem coisas do tipo "agora sei porque é que o meu pai nunca falava comigo quando eu era pequena". E começam a entender coisas de que não faziam a mínima ideia - és filho de um combatente e nunca te sentiste amado pelo teu pai. Muitas vezes as minhas imagens têm um impacto demasiado forte nas pessoas, principalmente naquelas que nunca falaram com outras que estiveram na guerra, e houve uma vez - numa exposição minha - que um homem olhou para uma imagem e entrou em pânico, começou a fugir e disse "não posso olhar para isto". 

Percebeu logo porquê?

Pensei "veterano do Vietname, com 99% de probabilidade". Não sei, as pessoas na comunidade de veteranos gozaram quando o John McCain se candidatou à presidência - "Ah! Vamos ter o primeiro presidente com stress pós-traumático". Não é um problema pequeno, é um problema muito grande, que se transforma em dependência de drogas, violência doméstica, alcoolismo, incapacidade de manter um emprego, de frequentar aulas... Regressam a uma sociedade consumista que acham frívola e ridícula, e esse é o primeiro choque. Depois não é como na Segunda Guerra Mundial, em que pensavam: "Ah! Matei aquele alemão." Estes homens matam pessoas que não sabem quem são, matam pessoas da mesma idade, por isso não há aquele sentimento de "matei os maus" e a maioria chega à conclusão que isso é redutor. Conheci um fuzileiro de elite com problemas psicológicos muito graves; a função dele era sentar-se à beira da estrada durante dois dias, como um sniper, e esperar as pessoas que devia matar. Depois vasculhava-lhes a roupa à procura de informações. Isto é o que a guerra realmente é. Um dia, enquanto procurava pistas num corpo morto, encontrou imagens dele em família e concluiu que ele e o homem que matou eram muito mais parecidos do que pensava. Nunca conseguiu esquecer esse momento. Quem está numa situação pior? O marine? Acho que é fácil acusar os militares de serem assassinos e não ir além desse ponto de vista. Por isso espero que o meu trabalho permita às pessoas verem mais que apenas os assassinos da América. Muitos destes homens estavam completamente desesperados antes de irem para a guerra. 

Porquê?

Era o exército ou a prisão. Não é como na Europa, não podemos encostar-nos ao Estado social. Há um rapaz que diz o seguinte num livro meu: "Todos os meus amigos estão presos ou agarrados ao crack." O meu interesse por trás da guerra era isto: o que acontece com uma pessoa jovem que tem aquela enorme fantasia de que a sua vida vai resolver-se de repente - vai para o exército, sair da sua cidade, afastar-se da família que não suporta e ver o mundo e a seguir bang! A vida desse jovem é cortada ao meio e depois, quando regressa, leva uma palmada nas costas, agradecem-lhe os serviços, deixam-no completamente desamparado e ele volta ao início, mas em piores condições. Muitos não conseguem emprego e não têm alternativa senão alistar-se de novo. Por isso a questão que agora está na minha cabeça é: o que vão fazer os EUA a estas pessoas que precisam de trabalho e não têm mais guerras com esta crise económica? Continuar à procura de novas guerras? Na Líbia, ou onde quer que seja? 

Sentiu alguma espécie de censura quando trabalhou com os veteranos? 

Não, porque tive pouco contacto com os militares. Uma vez que queria fotografar uma pessoa de que me falara um médico. Aterrei no aeroporto e tinha acabado de alugar um carro quando recebi uma chamada do exército a dizer que não o podia fotografar. A maioria das pessoas que fotografei já estava na reserva, por isso o exército já não podia fazer nada. Houve um homem, sobre o qual andei a ler e que ainda estava numa base militar, e só o consegui fotografar porque pedi à revista "Time" que escrevesse uma carta em meu nome a pedir autorização.

Sente algum tipo de peso na consciência por saber que o destaque dado ao seu trabalho vem, em parte, da desgraça dos outros?

Não concordo com o que me está a dizer. Se olharmos com atenção, aquilo que as pessoas querem de facto ver são as coisas relacionadas com celebridades. Por isso, se quisesse ter a certeza que muitas pessoas viam os meus trabalhos fotografava celebridades, certo? O meu trabalho, apesar de estar agora a ser reconhecido, representou uma luta, e não é aquilo que a maioria das pessoas quer ver. Trabalhei arduamente para encontrar quem quisesse expor as minhas imagens.
Fonte:http://www1.ionline.pt

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