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06/07/2011 10:19
Unidas pela trag?dia - por Marcelo Monteiro.

TEXTO PUBLICADO NO JORNAL DIÁRIO DE S.PAULO EM 8/5/2011)

Depois de 69 anos, Vera Beatriz do Canto e Walderez Cavalcante voltam a se encontrar. Fotografadas quando crianças, após o naufrágio do navio Itagiba, um dos incidentes que acabou levando o Brasil a entrar na Segunda Guerra, em 1942, as hoje septuagenárias passaram décadas sem ter qualquer notícia uma da outra

Walderez (esquerda) esteve na casa de Vera, quase sete décadas depois

Walderez (e) esteve na casa de Vera, quase sete décadas depois

Em 17 de agosto de 1942, duas meninas – uma de cinco, outra de quatro anos – saíram ilesas do naufrágio do navio Itagiba, no Sul da Bahia, um dos episódios que seriam determinantes para a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Hoje septuagenárias, Vera Beatriz do Canto e Walderez Cavalcante voltaram a se encontrar há alguns dias, depois de 69 anos sem saberem notícias uma da outra.

Durante dois dias as duas emocionaram-se, riram, choraram e trocaram palavras e demonstrações de afeto. “Nas maiores fantasias que pudesse ter feito em toda a minha existência, embora muitas vezes eu tenha pensado onde estaria a Walderez, nunca pensei que um dia a vida nos trouxesse novamente a presença uma da outra”, admitiu Vera, 73 anos, aposentada depois de 27 anos de trabalho no Banco do Brasil.

Após o torpedeamento do Itagiba pelo submarino alemão U-507 — o navio Arará, que socorria as vítimas, também acabaria sendo atacado —, os náufragos foram levados para Valença, no litoral sul baiano. Foi na cidade que as duas fizeram, juntas, uma das fotos que seriam usadas para ilustrar o livro “Agressão – Documentário dos Fatos que Levaram o Brasil à Guerra”.

Editada em 1943, pela Imprensa Nacional, a obra – hoje rara – trazia detalhes dos afundamentos das cinco embarcações mercantes atacadas em águas brasileiras no intervalo de três dias e justificava a declaração de guerra do presidente Getúlio Vargas aos países do Eixo. Somente nesses cinco torpedeamentos, morreram mais de 600 brasileiros. Em agosto, outros dois barcos seriam afundados. No conflito, 34 navios nacionais foram a pique, causando a morte de mais de mil brasileiros.

Ao longo dos anos, “Agressão” virou uma espécie de certidão de renascimento para ambas. Por sete décadas, Walderez e Vera folhearam e releram inúmeras vezes aquele livro amarelado pelo tempo, imaginando onde estaria a outra menina da foto. Unidas pela tragédia, elas nunca mais souberam nada uma da outra. Até abril de 2011.

Décadas em minutos

Dupla emocionada, minutos após o reencontro

Dupla emocionada, minutos após o reencontro

A psicóloga aposentada Walderez viajou de Maceió, onde mora, para rever a – agora se pode dizer – velha amiga, na zona norte do Rio de Janeiro. Com dificuldades de locomoção por conta da obesidade, Vera Beatriz quase não caminha sozinha. Em casa, usa o andador. Na rua, precisa de uma cadeira de rodas. No reencontro, porém, ela não se contém na poltrona onde devia aguardar a chegada da esperada visita. Entusiasmada, levantou-se e saiu caminhando – com sacrifício – em direção à cozinha, principal entrada da casa. “Deixa eu receber a Walderez”.

O primeiro olhar e o primeiro contato são tocantes. Depois de um minuto e meio de um doloroso abraço, as duas caminham de mãos dadas até a sala, onde começam a conversar. Na poltrona, as mãos seguem unidas. “Você não sabe o prazer de estar te vendo”, diz Walderez, lentamente, voz baixa e grave, como que medindo as palavras. Em um tom choroso, Vera responde: “Eu também. É muita emoção. Já estava emocionada de saber que você estaria aqui. Mas uma coisa é antes, outra coisa é na hora.”

Alguns segundos de suspiros e olhares mútuos depois, Walderez reinicia: “Eu nunca pensei que esse reencontro pudesse acontecer.” Vera completa: “Eu também, depois de tantos anos…”

Pela primeira vez, as duas falam sobre a tragédia que as colocou juntas em uma página da história do Brasil. “O seu problema foi mais grave que o meu”, lembra Vera, sobre o quase inacreditável salvamento da alagoana, recolhida após várias horas, boiando dentro de uma caixa de madeira vazia de Leite Moça. “Ficaram cicatrizes”, admite Walderez, também de 73 anos. “Sozinha, no meio do oceano, não consigo nem imaginar”, prossegue Vera.

A visitante suspira e volta ao presente: “Mas foi muito bom te ver. Foi ótimo te reencontrar.” As duas mostram um sorriso guardado por sete décadas. “Estou muito emocionada”, diz Vera. “Nunca pensei que a vida nos trouxesse esse momento.”

Walderez olha para a dona da casa e externa toda a felicidade do momento: “Ah, deixa eu ficar segurando a tua mão.” Vera sorri, feliz, no instante em que a amiga retoma a conversa: “Como que o sentimento consegue voltar àquela época?” Resignada, a ex-bancária apenas concorda. “É verdade…”

Pondo o assunto em dia

Monumento aos Mortos na Segunda Guerra

Monumento aos Mortos na Segunda Guerra

Passada a compreensível comoção inicial, Vera e Walderez tentam colocar os 69 anos de assunto atrasado em dia. Falam sobre casamentos, filhos, trabalho e, de vez em quando, voltam à tragédia que as uniu para sempre. Nas quase sete décadas em que não se encontraram, Vera casou-se, teve dois filhos e separou-se. Morou no Rio de Janeiro e em Fortaleza. Hoje quase não sai de casa, em função das dificuldades para andar. Quando sai, é sempre acompanhada do fiel escudeiro Francisco.

Já Walderez, viúva há poucos anos, teve três filhas — mora com uma delas em Maceió. Na infância, também viveu por alguns anos na capital carioca. A ex-psicóloga leva uma vida mais agitada. Quando não está em Porto Alegre ou Recife, visitando as outras filhas, frequenta uma academia de ginástica em Maceió. E, no carnaval, chegou a participar de um animado bloco da capital alagoana.

O assunto prossegue, e as mãos estão sempre unidas. Só se separam depois de meia hora, quando Vera pega a foto tirada em 1942. As duas olham para a imagem, pensativamente, mas não guardam nenhuma lembrança daquele dia. Filha do moço de convés Octávio de Barros Cavalcante, Walderez era a única dos sete irmãos que acompanhava o pai naquele dia. “Quando cheguei (em Valença), vieram com uma manta preta para me cobrir e me agasalhar”, recorda Walderez. “E eu disse ‘não estou com frio’”. Durante anos, Walderez viveu traumatizada e, até hoje, tem medo de entrar em qualquer embarcação.

Já Vera Beatriz, viajava com a mãe, Noêmia, e o pai, o capitão do Exército José Tito do Canto, com destino a Recife, onde a família iria fixar residência. No navio, estava o pelotão comandado por ele, que em Olinda deveria se unir a outro grupo de militares, formando o 7º Grupo de Artilharia de Dorso (Gado).

Para não assustar Vera, após o torpedeamento, o militar disse à filha que os passageiros precisavam mudar de navio. As palavras tranqüilizadoras do pai ajudaram a menina a manter-se calma, alheia à gravidade da situação, tanto na passagem do Itagiba para a baleeira quanto no momento de subir ao iate Aragipe. Para ela, a lembrança negativa foi a separação do seu boneco, que acabou ficando em Valença. “Eu, como fui salva assim, sem saber de nada – para mim, era uma troca de navios –, não tive nenhum trauma.”

Revivendo o passado

Dupla exibe a foto de 1942, no Museu-Submarino

Com a foto de 1942, no Museu-Submarino

Nos dois dias em que se encontraram, Vera e Walderez visitaram locais que lhes reavivaram as lembranças do naufrágio. Primeiro, passaram pelo Submarino-Museu mantido pela Marinha. Mais tarde, visitaram o Monumento aos Mortos na Segunda Guerra, onde estão o Mausoléu dos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB), que lutou na Itália, a partir de 1943, e a escultura que homenageia as Forças Armadas.

Em frente à Chama Eterna, dedicada aos soldados desconhecidos mortos em batalhas na Europa, novamente de mãos dadas, as duas emocionaram-se e choraram. Vera diz que, somente anos depois do episódio, conseguiu entender a dimensão do episódio. “Mais tarde, realmente me dei conta da tragédia que tínhamos sofrido e, mais ainda, os nossos pracinhas na Itália. Aí, sim, doeu bastante”, comenta. “Até hoje é assim. A visita ao Mausoléu foi de muita emoção e de muita saudade por todos eles. Mas essa emoção, só mais tarde eu vim a sentir porque, na época em que aconteceu, eu, de fato, não me dei conta de coisa nenhuma.”

Separadas pela vida

No Mausoléu dos Pracinhas da FEB

No Mausoléu dos Pracinhas da FEB

Como há quase sete décadas, Vera e Walderez precisaram se separar novamente. Depois de três dias no Rio, a alagoana retornou a Maceió. Mas, dessa vez, com os telefones de Vera na agenda, e a promessa de nunca mais ficarem – como se fosse possível – mais 69 anos sem manterem contato. Em tom de brincadeira, as duas também se comprometeram a não trocarem “torpedos”, como são chamadas as mensagens de texto enviadas via celular.

Para Vera, de alguma forma, o naufrágio do Itagiba as uniu para sempre. “Eu nem sabia de onde Walderez era e creio que ela também não sabia de onde eu era. Pensava onde ela estaria, o pai dela teve uma fratura séria – pensava se ele havia sobrevivido”, exclama a filha do comandante Tito do Canto. “Algumas vezes na minha vida, ao ver o livro ‘Agressão’, que li muitas vezes, ao lembrar de Walderez, eu pensava tudo isso. A vida nos separou inteiramente, para, depois de tantos anos, nos reencontrarmos.”

A alagoana, por sua vez, não entende por que as duas nunca se encontraram durante todos esses anos. “Não tenho palavras. Deve haver alguma explicação, que eu não entendo, porque a vida fez nos conhecermos ainda crianças. E, agora, depois de quase 70 anos, ela volta a nos unir”, afirma Walderez. “Para mim, isso faz crer que Deus existe.”

Para sempre, irmãs

Hora do almoço: sempre de mãos dadas

Hora do almoço: sempre de mãos dadas

Assim como o reencontro, a despedida também é emocionante. “Ai, Vera, é com muita saudade que eu vou te largar outra vez. Tu és como se fosse minha irmã.” Vera concorda: “Nós somos irmãs. Aqui está a prova”, diz, mostrando a velha foto do livro.

Walderez continua: “Vou pensar em você cada dia da minha vida.” A dona da casa derrete-se: “Eu também. Este momento da minha vida eu nunca mais vou esquecer. Se eu não tive consciência da tragédia, desse nosso encontro, depois de tantos anos, eu nunca vou esquecer”, afirma Vera. “Posso dizer que talvez tenha sido a maior emoção de toda a minha vida.”

Na última foto antes da despedida, Walderez arrisca um último afago na velha amiga. “Deixa eu te dar um beijo, querida.” Na saída, Vera faz uma última recomendação: “Quando você chegar lá em Alagoas, vê se encontra o meu boneco”, brinca, entre risos. “Pode ser que ele tenha ido parar lá.”

 

 

Vera (esquerda) e Walderez, com o boneco, em 1942

Vera (e) e Walderez, com o boneco, em 1942

ENTREVISTA: VERA BEATRIZ DO CANTO
Um drama em três atos

Vera Beatriz do Canto tinha cinco anos recém-completados no dia do naufrágio. Para ela, aquela passagem do Itagiba para a baleeira e, depois, do barco salva-vidas para o iate Aragipe, que levaria os náufragos até o litoral, era uma simples troca de navios.

No episódio, a menina teve três grandes momentos de tristeza: a quebra do pé do seu bonequinho, o momento em que as roupas do seu pequeno companheiro foram retiradas para serem usadas como bandeira de paz e, por fim, a despedida definitiva do brinquedo, que acabou ficando na cidade onde os náufragos foram atendidos. Confira a entrevista de Vera, hoje com 73 anos:

Quais as suas lembranças do dia do naufrágio?Eu e Walderez éramos crianças. Todos os tripulantes e soldados tinham por nós grande carinho. E aquele boneco que aparece na foto era meu companheiro. Não deixava ele por nada. Lembro que estava na cabine do comandante, junto com o timoneiro, perguntando – por que sou muito “perguntadeira” – o que eram aqueles instrumentos, relógios e aparelhos todos e para quê serviam. Não ouvi a explosão. Só recordo que os vidros se estilhaçaram de repente, e meu pai subiu correndo a pequena escada para a cabine e disse “minha filha, vem correndo que nós vamos mudar de navio”. Ao me virar, eu caí e cortei um pouquinho a mão e a perna, mas foram ferimentos muito leves. Aí meu pai me pegou no colo, e estava uma correria no convés. Todos os adultos sabiam o que estava se passando, e eu não estava entendendo – para mim, íamos apenas mudar de navio. Lembro que o comandante mandou que mulheres e crianças fossem postas na baleeira antes de elas descerem ao mar. E então me colocaram – e não sei qual foi o soldado – na baleeira. Minha mãe já estava na baleeira. A baleeira desceu ao mar, e aí os soldados começaram a pular.

Seu pai ajudou no salvamento dos náufragos?Como houve muito pânico, segundo papai me contou anos depois, ele, como comandante da tropa, se deixasse as coisas correndo daquela maneira, todos iriam morrer. Então, ele foi obrigado a pegar a 45 dele, que era a arma oficial do Exército na época, e botar ordem, junto com o comandante do navio.

Como foi o seu salvamento?Nós saímos na primeira baleeira, e eu sempre agarrada com o meu boneco, tranqüila. Lembro da pessoa que estava dirigindo a baleeira. A baleeira fazia muita água. Os soldados estavam tirando a água com os seus capacetes, e a baleeira estava quase adernando. E uma pessoa, que provavelmente estava dirigindo o caos ali, falou que, ao longe, havia um ponto preto que poderia até ser o submarino, que a baleeira não iria longe e que nós não tínhamos saída. O jeito era marchar para lá, mesmo que fosse um submarino.

A pequena Vera também viveu sua tragédia pessoal no torpedeamento. Como foi isso?Me disseram para colocar o boneco encostadinho no lado abaulado da baleeira. E, quando um dos soldados pulou, pisou no pé do meu boneco e quebrou. Para mim, isso foi uma tragédia. Eu abri o maior berreiro, e disso eu me lembro. Depois, a pessoa que estava comandando a baleeira pediu um pano branco para servir como bandeira de paz. Como ninguém tinha um pano branco, a roupa do boneco, que foi minha avó paterna quem fez – era de um rosa assim bem clarinho –, acabou sendo usada. Despiram o meu boneco, o que foi outra tragédia para mim, para servir de bandeira de paz. E então eles dirigiram a baleeira para esse ponto preto, que felizmente, era um barco brasileiro e recolheu todos os náufragos.

Seu pai foi uma das últimas pessoas a deixar o navio, certo? Por quê?Depois de terem saído todos os soldados, restaram no convés, segundo cartas do próprio comandante, o meu pai e o comandante Ricardo. E o comandante, como tem que afundar com o navio, ele tem uma bóia especial. Então ele disse ao meu pai que as possibilidades de salvamento dele eram menores que as do meu pai, porque ele deveria ser o último a abandonar o navio. Então, ele deu a bóia para o meu pai. Só que o navio já estava bem adernado e, inclusive, sugando, à medida que afundava, e a bóia caiu da mão de meu pai. Ele teve de se atirar na água. A 45 ele deixou no banco do navio. Ele ficou muito sentido com isso, segundo comentou mais tarde conosco. Quando se jogou na água, ele nadou por cerca de cinco minutos, em uma região de peixes e tubarões, até encontrar uma baleeira virada. Com outros soldados que também estavam à deriva, desviraram a baleeira, e ele recolheu os soldados que pôde.

Seu pai falava sobre o episódio com vocês?Papai tinha muita dor porque os soldados gritavam “capitão, me salve, capitão me salve” e ele se sentiu, ali, no meio do oceano, impotente para fazer alguma coisa. E isso me foi dito por ele. Papai sempre disse sentir muita dor, por não ter podido fazer nada. 

Navio Itagiba, no qual viajavam Vera e Walderez

Navio Itagiba, no qual viajavam Vera e Walderez

Como a senhora e a sua mãe reencontraram com o seu pai?

Papai ficou na dúvida: para onde teríamos ido? Como a baleeira deles também estava quase virando, superlotada, ele também – assim como aquele que comandava a nossa baleeira – decidiu ir para aquele barco pequenininho, que, da posição onde ele estava, já dava para ver que se tratava de um barco brasileiro. Foi assim, na escolha aleatória, que nós nos encontramos, no próprio iate Aragipe. E, assim que o comandante do nosso barco salva-vidas ordenou a marcha, nós ouvimos o estrondo do Arará – e esse eu ouvi, mas não vi, porque era pequenininha e estava no meio de um monte de gente. Segundo relato até de papai, ele afundou em pouco mais de um minuto, e muito poucos foram os que se salvaram.

A senhora lembra de como foi a chegada em Valença (BA), onde os náufragos foram atendidos?Lembro quando nós desembarcamos. Tinha gente esperando. Logo a seguir, recebi de presente um novo boneco, porque o meu, esse da fotografia, continuava agarrado comigo. No quarto, onde colocaram uma caminha de criança para que eu dormisse, já tinha ganho o outro boneco, mas não queria me desfazer do meu bonequinho. E, depois, na estada em Valença, meu papai foi visitar, com mamãe e comigo também, o hospital onde estava sendo tratada a maior parte dos sobreviventes. Muito me impressionou um dos náufragos que, no meu olhar de criança, estava com um capacete de couro, os olhos fechados, só com a parte do rosto — olhos, nariz e boca — descobertos e com uma secreção sanguinolenta no nariz. Esse irmão, náufrago, na visita que fizemos ao hospital, por muito tempo, me deixou impressionada, inclusive porque — eu também soube posteriormente — ao pular na segunda baleeira, um soldado caiu no mar e a baleeira, no balanço do mar, imprensou-o contra o casco do navio. E eu fiquei muito tempo pensando — e até hoje nunca soube — se esse soldado teria morrido ou seria aquele que estava lá, com aquele capacete.

Como foi a separação do seu bonequinho velho, o do pé quebrado?Aí veio minha segunda tragédia. Quando embarcamos de volta para o Rio, como eu tinha um boneco novo, minha mãe não me permitiu trazer meu bonequinho. E eu, na caminha onde dormi, deixei o bonequinho, cobri-o e chorei muito. Por mais que pedisse, mamãe não concordou em trazê-lo. Papai estava mais preocupado, naturalmente, com os sobreviventes, afinal, a maior parte eram soldados dele, e também com os náufragos, de modo geral. Ele era responsável pela tropa toda que comandava. Então, ele também não se deu conta da minha choradeira e da minha dor em deixar meu bonequinho, este que está na foto, lá no bercinho, em Valença.

A senhora ficou com algum trauma do naufrágio?Não, porque não me dei conta do que estava se passando. A única coisa que meu pai falou era que iríamos trocar de navio. Eu tinha feito cinco anos de idade no dia 1º de agosto. O naufrágio foi no dia 17. Se a gente iria trocar de navio, para mim, era tudo muito natural. Não vi o nosso navio afundar. Não vi o Arará. Ouvi o barulho e o comentário. Mas, para mim, naquele momento, tirando o incidente com o pé do meu boneco, tudo era festa. O único trauma que custei muito a esquecer, mas que não me trouxe seqüelas psicológicas, foi esse soldado, que muito me impressionou e que eu não sei se salvou ou não, mas talvez tenha sido o náufrago mais grave que eu, na visita que fizemos, presenciei. Até hoje, lembrando ou conversando sobre o episódio, é como seu eu estivesse vendo ele. Mas, para minha vida pessoal, não trouxe traumas. Quando tomei conhecimento de que tinha sido uma tragédia, eu já era maiorzinha, já tinha raciocínio para que meu pai pudesse conversar comigo a respeito do ocorrido. Mas o meu boneco, era uma tragédia. Cada vez que lembrava dele, eu chorava.

 

 

Carta TitoCarta para um herói

A tragédia que vitimou o Itagiba uniu vários destinos. O capitão do navio, José Ricardo Nunes, e o comandante do pelotão, o capitão José Tito do Canto, foram os últimos a deixar o navio. No momento em que o Itagiba adernava, Canto, inclusive, pediu a Nunes que colocasse a esposa, Noêmia, e a filha, Vera Beatriz, na baleeira, enquanto ele próprio tentaria salvar os seus comandados, que gritavam por socorro.

Em carta enviada por Nunes a Canto em 8 de maio de 1944, quase dois anos depois do incidente, o comandante do Itagiba responde à correspondência remetida pelo militar alguns dias antes, em 23 de abril.  Além de fazer uma eloquente declaração de amizade, Nunes lamenta o fato de o planeta estar mergulhado em uma guerra mundial e elogia a bravura de Canto durante o afundamento. Confira um trecho da carta:

“No dia 23 de abril teve o meu grande amigo a lembrança de me escrever a primeira carta. Dia 23 de abril é o Dia de São Jorge e neste mesmo dia, no ano de 1900, minha querida mãe me lançou neste mundo de misérias, neste planeta atrasado que a humanidade cognominou TERRA. Apesar dos sofrimentos que tenho passado, grandes alegrias eu tenho também sentido. Uma das maiores alegrias que tenho anda guardada no meu coração foi ter salvo a sua boa e querida esposa Dona Noêmia e a sua linda e extremosa filhinha Vera Beatriz. (…)

Eu me senti e me sentirei sempre orgulhoso de possuir a amizade de meu grande e valente Capitão Canto. Não poderei esquecer jamais a sua coragem. Um homem que entrega sua esposa e sua filhinha em um momento tão crítico ao capitão do navio e vai cuidar dos seus soldados até o momento em que o Itagiba afundou, este homem, não se pode chamar somente um grande homem e sim um grande herói. Eis a razão por que eu jamais esquecerei o meu grande e valente Capitão Canto.”

 

 História revisitada

DEZ050

Em agosto de 1942, sete embarcações brasileiras foram afundadas na costa do Nordeste pelo submarino alemão U-507, causando mais de 600 mortes. No ataque mais cruel, no dia 17, no litoral sul baiano, o navio Arará foi atingido covardemente, enquanto socorria os náufragos do Itagiba, torpedeado horas antes. Cinqüenta e seis pessoas morreram somente naquela segunda-feira. Menos de uma semana depois, o Brasil declarava estado de beligerância aos países do Eixo.

Um dos episódios mais marcantes após os naufrágios no litoral sul baiano foi o salvamento de uma menina de apenas quatro nos de idade. Walderez Cavalcante surgiu na praia horas depois dos torpedeamentos, depois de permanecer por horas, boiando, dentro de uma caixa de madeira (de leite condensado) vazia. Em 27 de março, a revista DEZ! publicou uma entrevista com Walderez. O material ainda pode ser visto no site do Diário de S.Paulo.

Reportagem e fotos: Marcelo Monteiro.

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