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05/06/2020 19:52
Breve cartografia narrativa de Taguá. Parabéns Tawá Tingá pelos seus 62 anos.Pela Poetiza Keyane Dias.Foto:Ivaldo Cavalcante
Fonte:https://aflora.art.br/

 62 anos de Tawá Tingá. Barro branco sobre terra vermelha cerratense acobertada de asfalto. A cidade onde nasci é mais jovem que meus avós. Ando pelo mundo sempre lembrando do que Taguá e sua ciganagem me ensinam. E entre seus muitos cantinhos babilônicos, quem não se lembrará do eterno e sempre vivo Lambe-lambe 3 x 4 da Praça do Relógio. Parece até que tá lá desde antes de JK inventar sua grande coisa, debaixo do céu aberto desse Sertão do Brasil Central.

Taguá é assim, além do tempo linear dos planos pilotos. Revolucionária desde que nasceu, com suas manifestações populares de lavadeiras e trabalhadores que construíram muito mais que a capital. Celebrar Taguá é celebrar liberdades. É dançar o meio do caminho, onde tudo acontece. É viver nossas praças, feiras itinerantes e suas gentes. É relembrar nossos extintos cinemas de rua exorcizados a assassinados. Cine Lara, Cine Paranoá, Praça do D.I, do Bicalho, CNF, Dimas, Matias, Facita. Vai lá na J, na L ou na M. Também tem praça, trapaças e samambaias penduradas perto do portão. Se os bancos da Pracinha da 30 na J falassem, eu tava no sal. Anos 2000… onde o rock’n roll ainda era escola.

Penso que se desse, tudo seria na praça ou da praça em Taguá. Até Teatro da Praça tem. Será que ainda tem? A gente nunca sabe se ele tá funcionando… Mas segue resistindo desde que Rola Pedra e Caixa D’água ainda viviam entre nós, abrigando legiões urbanas fugidas ou expulsas de Bras-ilha. Machado de Assis faz morada ali na biblioteca do teatro, onde também tem CEMEIT, Festival Taguatinga de Cinema, Biblio Braile, Academia Taguatinguense de Letras e até Sahaja Yoga. É… Taguá também tem seus imortais e suas transcendências.

E o que falar da Avenida Hélio Prates, cortando aquela selva urbana inimaginável que conecta o finzinho do jovem Taguaparque, a Flona, Taguacenter, Feira dos Goianos, G, H, I, Cemitério e Cei. Dobra pra esquerda, tem o Parque do Cortado. Matei muita aula lá. Mais adiante, Saburo Onoyama e Kireibara, santuários verdes nipônicos que abriram trilha pro Sítio Geranium e suas santas agroflorestas. Que Oxum abençoe nosso Córrego Taguatinga!

Fazendo cruz, tem Via Estádio, ao lado da rodoviária onde eu comprava Tele Sena pra minha vó. A rodô original sumiu, foi enterrada pelo gigante complexo de prédios do Buritinga, novo Palácio do Buriti nunca inaugurado, ocupado de vento e dúvidas obscuras. E a rodô temporária segue sendo temporariamente permanente e pequena demais pra ciganagem taguatinguense, goiana, mineira, nordestina, sudestina, nortista, brasileira.

É por ali mesmo onde começa a Chaparral, fronteira estigmatizada por quem não sabe o que diz. Cresci lá até os 5 de idade, entre Taguá e Cei, ouvindo RAPs e com direito a foto em cima do burrinho pintado de preto e branco. Ninguém poderá dizer que não tem zebra por aqui. Passa dos dedos do corpo o tanto de casa que meu vó construiu na Chapa. Seu Mané da 14. Só perguntar por ele, que todos lembrarão com saudade.

Seguindo dali mesmo, pertinho do Metrô, ou você desemboca no centro de Taguá e toda sua zona, ou você de novo vai parar na Cei. É que Taguatinga, Ceilândia e Samambaia são irmãs do mesmo ventre de sonhos onde retirantes e mambembes fizeram morada pra construir suas liberdades, ainda que o plano não fosse esse. Me fiz gente nelas três, batendo pernas incansáveis por Taguatinga, com aquela sempre breve e irresistível parada no Alameda Shopping pra fazer xixi. Quem nunca?

Mas se lá na Via Estádio, em vez de seguir pra Cei, você cruzar a ponte, tem mais veia aberta nas Avenidas Primavera e Boca da Mata, unindo as mãos de Taguá e Samamba numa ciranda sem fim. É por elas que você chega na Sul, onde um tal Beco da Cultura faz qualquer fascista chupar o dedo ou abrir o coração. Santo Beco, Mercado Sul de “antenas sempre ligadas na frequência dos malucos”, como diz Mestre Virgílio. Mas, como ser normal nunca foi o nosso plano piloto: 62 vivas para o Beco e seus tijolos Athos Bulcão extraviados. 62 vivas para seus mamulengos, cocos, capoeiras, teatros, artesanatos e vidas.

E é só falar em Beco que o novelo vai desenrolando… 62 vidas pra Semana de Arte e Cultura de Taguatinga, Ponto de Cultura Invenção Brasileira, Tribos das Artes, Motirô, Mamãe Taguá, Bar do Careca, Cervejaria Caixa D’Água, Butiquim Blues, Blues Pub, Tucanos Bar, Clube dos 200, Galeria Olho de Águia, Batalhão das Artes…

Não é só o famoso comércio e os múltiplos serviços que fazem Taguá pulsar, engarrafar e costurar vidas. Arte e revolução são o prana e a saúde dessa cidade metropolitanamente subversiva. É como digo em um poema: “A cidade, ainda que cinza, é feita de gente que se transforma…”

5 de junho de 2020, lua cheia em sagitário com eclipse

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Thalyta Ribeiro de Oliveira Incrível seus projetos, tanto de fotografia, quanto com a galeria e as produções audiovisuais. Apenas continue!!
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