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17/10/2018 08:44
Fellini, fellinisses e fellinuras1.Por Rodrigo A Magalhães.

 Ao meu amigo Alfredo C. Q.

 
Como diz meu amigo Alfredo: se todo cinema do mundo desaparecesse, mas
restasse um único filme de Fellini - a sétima arte estaria a salvo. Resguardado o
excesso de um apaixonado pelo cinema italiano, esse entusiasta tem toda razão. E
quando percebemos que a arte é uma ampliação da dor e das delícias da vida, mais
uma vez o cinema italiano dá uma aula para a humanidade. Quando partimos das
frases iniciais do filme Roma, vemos não só que a sorte está lançada - ou que os
dados estão lançados: o riso, antes de tudo, está lançado. Assim, é o acaso e o humor,
não a ordem, que preponderam na vida. Se alguém quer um rastro da nossa veia
latina, aí está! Assim como a Eneida é a matriz literária do mundo latino, o cinema
italiano é o registro da vida latina - desse grande teatro de variedades com seus
Arlequins, Pierrots e Colombinas... Como poucos, Fellini sabia carnavalizar a vida
em todos os seus meandros, a ponto de revelar a existência como um permanente
afresco de Pompéia.
Talvez o cinema de Fellini seja representação deliciosa do Homo ridens de
Henri Bergson: Le rire - essai sur la signification du comique. Paris: Librairie Félix
Alcan, 1916.
 
Não existe o cômico fora do que é humano.
 
[Il n’y a pas de comique en dehors de ce qui est proprement humain. (3)]
 
 
 
 
A ação humana não resisti a um riso - esse sinal de inteligência se aviva na
medida que nos reunimos com as pessoas: Notre rire est toujours le rire d’un groupe
(6) - é a coletividade o lugar privilegiado do riso - mesmo o riso a sós carrega sua
significação social. C’est la maladresse = o desajeitar, o acidental, a distração - talvez
o cômico more no lapso, no chiste diário - essa é a matéria prima usada pelo artista
para ridicularizar a moral, os bons modos e afrouxar as couraças e o rigor de caráter.
No final das contas, qual seria a etimologia da palavra gozar? O importante é que tem
profunda relação com a alegria e o sorriso! E é justamente esse riso como
contrabalanço da vida social que ajuda a resolver as pequenas mazelas e as pequenas
tragédias cotidianas. Como filhos da modernidade e da contemporaneidade, não cabe
mais os grandes gestos épicos, é o drama privado e burguês que ganha proporção
gigantesca num jogo entre a:
Tension et élasticité, voilà deux force complémentaires l’une de l’autre que la vie met
 
en jeu. (18-19)
 
E é sobre essa dramaticidade que Fellini lança sua lente. Para bom observador,
a vida apresenta de forma espontânea o ensejo de um sorriso. A quebra da ordem e da
falsa harmonia é provocada pelo riso libertador. Só essa alegre sabedoria pode ruir os
mecanismos de repetição dos dias que giram em torno de um relógio e que ameaça o
tempo relativo e o sonhos que pulsam em cada um. Para transformar essa situação
angustiante, só a lógica do riso para desrespeitar o dito razoável e desmascarar a
expressão bem organizada das personas que, com suas caras graves, impõem um ar
falsamente respeitável. Como dizia Jorge Mautner: só a alegria é profunda, a
seriedade não é profunda.... O sorriso almeja a eternidade!
 
É o cotidiano massacrante afundado na sua repetição ad eternum que produz os
quiproquós que alimentam a gargalhada. O mesmo cotidiano que massacra induz ao
erro e ao lapso cômico; não é a queda trágica de um herói, é o escorregão do
cotidiano, é o erro dos pequenos cálculos. O riso sai dessa observação do jocoso das
ações humanas. Se tudo é vaidade, é o riso que descortina essa pecado capital para
mostrar a igualdade de todos frente ao ridículo. O resto é a lógica do absurdo, é a
degradação humana que todos tentam disfarçar até chegar a desfaçatez de tentar
ocultar o que está evidente. Por outro lado, diante do cômico todos os pecados, todos
os excessos são possíveis, não há limite para a beleza que dá risada do lindamente
desatinado.
Por fim, cabe lembra que Fellini não só sorria do erro, do engano e do
desacertos das coisas prosaicas. Frente ao fascismo e ao autoritarismo estridente e
irracional que assolou e tenta aniquilar a liberdade tão necessária à vida, o cineasta
também sabia extrair a chalaça. E é em meio essa farsa totalitária que mais uma vez
volta a soprar na política mundial que o cinema italiano se faz urgente. E como diz
meu amigo Alfredo: Fellini neles!
 
Brazlândia-DF, outubro de 2018.
 
1 Rodrigo A Magalhães. E-mail: rodrigoamagalhaes@hotmail.com
 
 
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