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18/04/2018 16:50
5 Lições do Filme O Sal da Terra, sobre Sebastião Salgado

 

Conteúdo


Introdução – A Obra

É imperdível para fotógrafos e interessados em fotografia o documentário “O Sal da Terra”, que mostra um pouco da vida e obra do grande fotógrafo brasileiro – e mundialmente conhecido – Sebastião Salgado.

O filme mostra, em quase duas horas, fotografias maravilhosas e suas histórias, que se confundem com a própria história de vida de Sebastião. 

Enquanto assistíamos ao filme, fomos fazendo anotações de fatos que, na nossa opinião, se destacaram ao longo da carreira do fotógrafo. Nosso intuito foi de identificar os diferenciais que ajudaram a fazer de Sebastião Salgado um fotógrafo de tanto destaque em todo o mundo. 

A seguir, iremos compartilhar com vocês as nossas observações e, em negrito, destacar alguns dos pontos inspiradores, que a nosso ver foram diferenciais na carreira de sucesso de Sebastião Salgado.



1 – Viajar, viajar, viajar

Em primeiro lugar, algo que fica evidenciado no documentário O Sal da Terra é que sair do Brasil foi um passo essencial para o início da carreira global de Sebastião Salgado. Para ser um fotógrafo reconhecido mundialmente foi necessário que ele fosse um cidadão do mundo – não de um país apenas. Fronteiras são apenas linhas em mapas, e ele não se inibiu por elas. 

Ficar imerso em lugares remotos, evitar o turismo de passagem que dura apenas alguns dias ou horas, entrar no dia-a-dia de povos que ninguém conhece, de culturas tão diferentes e inimagináveis, conhecer trabalhadores em condições sub-humanas, sobreviver a guerras, vivenciar realidades opostas às nossas e por isto um tanto quanto incompreensíveis, eram parte da rotina de Sebastião em suas expedições fotográficas. Estas viagens eram planejadas em conjunto com sua esposa Lélia, com o objetivo de buscar imagens únicas.

Um exemplo interessante dado no filme é que, em uma de suas viagens, Sebastião Salgado se juntou a um padre para visitarem povoados rurais em lugares diversos da América Latina. Em estadia no Equador, um camponês acreditava que Sebastião fosse um enviado do céu, após conviverem por uns dias. São pessoas de uma realidade tão diferente da nossa, que é difícil ou mesmo impossível para nós de imaginar. Quem mora em lugares muito remotos e não tem contato com “o mundo lá fora”, não sabe nem o que é fotografia, e pode achar mesmo que uma pessoa que apareceu – e sumiu – do nada é mesmo uma espécie de deus.

Não espere viagens com luxos. Nestas viagens, onde tivesse que dormir, ele tinha que dormir – e o mesmo vale para alimentação. O que se apresentasse no prato, ele tinha que comer. Nem sempre existia a possibilidade de se hospedar em hotéis 5 estrelas… Muitas vezes nem mesmo hotéis 1 estrela existiam aonde ele ia. Isto é uma realidade para qualquer um que busque fotografar lugares remotos, rurais, humildes, zonas de conflito, etc.

Outro ponto a se acrescentar é o desprendimento da família. Lélia Wanick Salgado, a mulher de Sebastião Salgado, nem sempre ia junto com ele em suas viagens. Ela ficou anos sem a presença do seu marido, pois ele fazia viagens bem longas. Em muitos casos, se comunicavam apenas por cartas. Um de seus projetos durou seis meses, mas um outro mais longo levou dez anos e meio. Possivelmente Sebastião conseguia visitar a esposa e os filhos de vez em quando. Ao voltar para casa, via cidades e pessoas mudadas – mas logo tinha que sair novamente, abrindo mão da convivência com eles para realizar seus projetos.

É preciso estar disposto a deixar muita coisa para trás, mesmo que temporariamente, desapegar-se de suas raízes, às vezes até mesmo priorizar a fotografia perante a sua própria família. Ter urgência em fotografar mais, em ter sempre um novo projeto. Fazer sacrifícios é parte da vida de um fotógrafo obstinado e focado em seu trabalho. É uma questão de gerenciar riscos, gerenciar expectativas e confiar na sua família e amigos.

Ao mesmo tempo em que falamos da urgência de Sebastião Salgado em viajar e fotografar outros lugares, é importante ter um porto seguro, um lugar que você possa dizer que é a sua casa e aonde o seu acervo fotográfico esteja seguro. Um lugar para lembrar da segurança mesmo quando a sua vida está em risco – um lugar para chamar de casa, mesmo a milhares de quilômetros de distância.

Além disso, a questão da viagem que estamos frisando não significa que não existam possibilidades sem fim de ótimas fotografias na cidade onde você more. No caso de Sebastião Salgado, sua cidade natal é Aimorés, MG – onde ele também fez imagens maravilhosas. Ou seja, não precisamos ir tão longe para tirar excelentes fotografias, se viajar não nos for possível ou interessante. Mas considere firmemente o fato de que se Sebastião Salgado não tivesse saído de lá, ele nunca seria o ícone que é.



2 – Não abandonar sua história pessoal

Cada fotógrafo tem sua história pessoal, sua visão de mundo, e isso se traduz em suas fotografias.

Sebastião Salgado estudou Economia e trabalhou nesta área por muitos anos. A princípio, temos a impressão que Economia não tem nada a ver com Fotografia, e na nossa cabeça, ele iria ter que começar “do zero” para iniciar sua carreira de fotógrafo. Na verdade, ele usou o seu conhecimento e a sua experiência prévias a seu favor e somou as duas áreas ao invés de esquecer a primeira. Seu estudo e trabalho anteriores deram a ele uma compreensão do que rege o mundo, e isto o deixou inquieto e interessado em fotografar. A lição que podemos tirar daqui é que, se você quiser mudar de área para ser fotógrafo, não desanime e nem encare sua carreira anterior como tempo perdido. Qualquer estudo ou qualquer experiência, ainda que não sejam diretamente relacionados à fotografia em si, vão te ajudar a ver e entender o mundo de alguma forma, e podem ajudar a abrir a sua mente. 



3 – Fotografar não deve ser uma atividade solitária – é trabalho em equipe

Nesta sessão, destacamos a importância do trabalho de Lélia Wanick Salgado em construir a imagem que temos hoje de Sabastião Salgado, seu marido.

Para focar na sua carreira como fotógrafo é melhor que você tenha suporte de outras pessoas competentes, trabalhando, focadas em expor e vender as suas fotografias, fazer contatos e publicações de livros, administrar o acervo, filmar documentários etc.

Ser fotógrafo e, ao mesmo tempo, gastar horas e horas do seu dia vendendo seu próprio trabalho e tentando ser popular não combinam. Seu tempo é muito precioso e precisa ser bem administrado.

É preciso ter organização e saber como não perder as suas fotos e como achá-las quando precisar.

Nestes pontos, damos devida importância aos feitos da Lélia. Durante a ascenção da popularidade do seu marido, ela estava na linha de frente, fazendo contatos vitais para a exibição e reconhecimento mundial das fotografias tiradas por Sebastião. Ela também estava nos bastidores, trabalhando na edição e curadoria de imagens, hoje icônicas, mas que um dia foram “apenas mais uma” dentre milhares de rolos de filmes fotográficos.  

Além disso, Lélia foi essencial no planejamento e suporte aos projetos de fotografia do Sebastião Salgado. Sem seus contatos preliminares e planos, é muito provável que a produtividade de Sebastião no campo seria menos eficaz.

Quanto a isso, uma das lições que fica para outros fotógrafos é que iniciar o seu próprio projeto de fotografia ou pelo menos criar séries com um tema único ajuda a focar no que é importante e deixar de lado o que não se enquadra no seu escopo.

Projetos de fotografia não precisam ser curtos. A exemplo daqueles liderados por Sebastião Salgado, os melhores projetos podem render milhares de imagens e levar anos para serem concluídos. Projetos de fotografia devem culminar em publicações, sejam de um livro, website ou mesmo um filme, documentário.

Destacamos também a importância de Juliano Salgado, filho de Sebastião, e Wim Wenders, como diretores do documentário O Sal da Terra. Mais um ótimo exemplo que fotografia requer trabalho em equipe.





4 – Ter disposição – E acima de tudo empatia pela condição humana

Para tirar fotografias únicas é necessário correr riscos, ir a lugares aonde outros não vão, descobrir ângulos e perspectivas inéditas, rolar pelo chão e não ter medo de se sujar.

Tem que ter disposição física: esteja preparado para andar, correr, subir escadas, subir ladeira, entrar no mato, rastejar, ir em lugares desconfortáveis, fugir de possíveis perigos, enfrentar sol, chuva, frio extremo, altitudes, se expor a mosquitos e doenças…

E tem que ter também preparação mental/psicológica: prepare-se para ver pessoas passando por necessidades, a humanidade nua e crua, e enfrentar o medo. Tem que ter coragem de denunciar o que vai de encontro aos seus princípios, de mostrar a verdade e de entrar no meio do que está acontecendo. Não ter receio de se meter no meio do caos – aliás o caos é o que se procura. Precisa ser aberto a aceitar outras culturas e religiõescomo elas são. Aceitar que a morte faz parte da vida, e mesmo assim ser capaz de seguir em frente.

Sebastião Salgado não ficou famoso por fotos de crianças felizes na Disney. Ele tirou fotos de guerras, do dia-a-dia, de pessoas suadas, de migrantes, pessoas de verdade. Pessoas trabalhando, carregando peso, chorando ou mesmo mortas. Ele não fotografa o mundo ideal e idealizado, mas sim a verdade crua, que poucos – ou até ninguém – querem ver. Ele fotografa o mundo real. Ele mostrou o sofrimento de grande parte da humanidade e não teve medo de ver de perto a morte, a fome, o sofrimento. Ele também não tinha medo da própria morte. “Tirei a foto e corri”, falou mostrando a foto de uma mulher e uma criança correndo (fugindo) de um helicóptero que estava sobrevoando a região e atirando com metralhadoras. As duas corriam risco de vida – e ele também.

Movido pela curiosidade por essa profissão explosiva”, foi ao Kwait em 1991 fotografar os poços de petróleo incendiados no final da Guerra do Golfo. A sua paixão pela fotografia era tanta que ao sair de lá por causa de todos os riscos que corria, ele ficou de coração partido por ter deixar este “espetáculo grandioso”.

Após viagem à Ruanda/Congo em 1994, e se envolver na triste situação, disse: “Quando saí, meu corpo estava doente. Eu não tinha uma doença infecciosa mas minha alma estava doente. Muito doente”. Por mais que tentasse não se deixar abater, não era garantido que isto não iria acontecer.

Descrito como fotógrafo social e testemunha da condição humana, Sebastião Salgado não ignora o que vê. Sobre uma de suas viagens falou: “Quantas vezes pus as câmeras no chão para chorar com o que via!”



5 – Saber lidar com pessoas leva a fotografias que trazem comoção

Sebastião Salgado precisou sempre ser muito bom na arte de lidar com pessoas. Para conseguir a maioria das fotos foi necessário, de alguma forma, se comunicar. É importante buscar uma mínima aproximação com todos – humanos e animais – e o próximo passo era conseguir cativá-los para que aceitassem ser fotografados.

Se não falar a língua da pessoa, use a linguagem dos sinais, use a expressão corporal e a empatia. Porque não falar a mesma língua de quem está sendo fotografado pode não ser um problema, mas sim uma oportunidade.

Além disso, algumas das melhores fotos não foram “de passagem”. Para entender a cultura, as pessoas, ter acesso aos seus rituais, sua vida e dia a dia, é preciso mais do que um dia ou dois… Para isto, são necessárias estadias longas, e assim conseguiremos ser parte de um grupo, entender sua rotina e participar dela, ganhando confiança e experiência com estas pessoas.

Suas fotos têm histórias para contar, com múltiplos significados e mensagens. Cada foto individualmente traz consigo mil histórias. Por entrar no meio do que está acontecendo, Sebastião vive aquela realidade e por isto ele acaba fazendo parte da história também (pelo menos durante aquele período de tempo). 

Ele tem a capacidade de se conectar com quem está sendo retratado, e por isto suas fotos comovem tanto os espectadores. É como se ele trouxesse aquela(s) pessoa(s) para dentro da sua sala, para a presença do espectador. Wim Wenders, um dos diretores do filme, diz sobre uma das fotos de Sebastião (um retrato de uma mulher): “Ainda me faz chorar, mesmo que eu a veja todos os dias…”

Sebastião Salgado tem uma visão muito interessante sobre retratos: “A força de um retrato é que naquela fração de segundo a gente entende um pouco a vida daquela pessoa. Os olhos dizem muito, a expressão do rosto…” E completa afirmando que o fotógrafo não faz um retrato sozinho – a pessoa é que dá a foto.


 

Para finalizar e te inspirar…

Viajar é necessário, voar é preciso, para ter pontos de vista que apenas os pássaros e nenhum outro humano tem.

É preciso ser destemido e fotografar aquilo que as autoridades gostariam de esconder, as vergonhas do mundo, o sofrimento das minorias e a ingerência das políticas falhas. E mesmo assim, com todos os contratempos, ter força para não adoecer, permanecer alerta, seguro em meio à insegurança e, depois, voltar para seu porto seguro com vida e afinco para mostrar o que você fotografou para o mundo.

Fotografar por fotografar, sem expor ou dividir, nem mostrar para os outros, de nada serve.

Imagens educam, mostram uma perspectiva única sobre o mundo e, se forem mantidas num HD ou numa gaveta trancada, nenhum poder elas têm. Portanto, para ser um grande fotógrafo não se pode ter medo de mostrar as suas fotos – elas têm um propósito e não é o de ficarem guardadas.

É preciso ter atenção ao detalhe, mas sem perder o foco e a visão global.

Nunca é tarde para começar. Fotografia não precisa ser a sua primeira profissão, mas vai precisar ser a sua única profissão para que você seja reconhecido internacionalmente por suas fotos.

Você tem que confiar nos seus equipamentos, saber usá-los e como mantê-los, como fazê-los durar mais, pois no meio do nada, você não vai ter a quem recorrer, aonde comprar outra câmera, bateria ou memória. O fotógrafo e a câmera passam a ser um só.

Carisma não é necessário só com pessoas, mas também com animais. Aventureiro não é só se enveredar por meio de guerras e sociedades de culturas desconhecidas, mas também em caminhos não trilhados pelo homem, pela natureza intocada. E assim, mostrar mais uma vez o que ninguém mais vê no seu dia-a-dia nos campos e nas cidades onde a imensa maioria da população do nosso planeta habita.

Fotografia social ou de natureza, não importa. O ingrediente que elas precisam ter é aquele que não existe sem que o fotógrafo se aventure e veja o que poucos (ou ninguém mais) nas cidades e campos viram. Este ingrediente pode ser chamado de raridade. E as fotos já são raras desde que foram tiradas.

Mas existe mais um detalhe na internacionalidade que chama a atenção: a língua passa a ser secundária. A fotografia não tem uma língua. Quem as divulga, para abranger o resto do mundo, precisa ir muito além das bordas de uma nação.


Veja o trailer:


Assista ao filme no Netflix (ainda disponível em Novembro/2017)

 
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GERALDO Magela parabens amigo Ivaldo pela sua luta e honestidade e carater valeu amigo
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Voc? e a favor que o Jardim Bot?nico de Bras?lia - JBB. cobre da popula??o pra tirar foto?
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